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Bombaim, maximum city

Mumbai Travel Blog

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Foto de Grupo no Gateway of India

Tenho andado a ler um livro indiano, intitulado Deli. Infelizmente, a 14 já não nos encontrávamos em Delhi, pelo que o reconhecimento de todas as situações e lugares não é agora para aqui chamado. Os guias turísticos realmente aparecem em todo o lado desde Purana Qila (aos quais nos safámos bem, não foi?) até ao Qutub minar. Aliás, o Qutub Minar tem grande importância na vida dos Delhiwallas (habitantes de Delhi) em tensão sexual, parece que há sempre a tentação de fazer referência ao qutub minar pessoal e para bom entendedor meia palavra basta.

 

A confusão de línguas na Índia é incrível mas nós não nos apercebemos disso. De qualquer forma, isso agora não interessa nada. Depois de passarmos por cidades muito divididas em termos religiosos, com grandes influências muçulmanas, sihks e tendências várias acordamos a 14 na cidade mais hindu da Índia, pelo menos em termos de cerimónias.

Rajabai Tower
O Mike procurou incessantemente por um guru, mas o melhor que conseguiu foi arranjar um taxista que nos tinha abandonado fulo a oferecer-nos novo serviço.

 

Depois de pequeno-almoço, a rotina de arranjar transporte para nove pessoas. Rapidamente chegamos a acordo, estamos já bastante versados na negociação de preços de transporte - 700 rupias por dois táxis para o aeroporto... é esse o acordo. Claro que uma coisa que descobri é que para os indianos tudo é possível mas a eficiência é um conceito completamente desconhecido. Não há meio de arrumar as malas nos dois táxis minúsculos que nos hão-de levar ao aeroporto. Decido intervir: todas as malas fora, nova forma de arrumação muito mais sensata e… por 1 ou 2 cm tinha tido mais sucesso do que eles :P Não me valeu de muito, tivemos de carregar malas tb dentro dos carros. O ponto principal neste momento é mesmo o espanto com que os indianos me vêm desarrumar e arrumar malas assim como os todos os engenheiros de obras portugueses.

 

Arrancamos em direcção ao aeroporto. Está um tempo quente, cerca de 25 graus e são 10h45. Vamos 5 num carro: Mike, Rute, Hugo, Sandra e eu. A conversa gira sobre toda a experiência indiana, especialmente sobre os dias que se vão tornar míticos na nossa viagem a Varanasi.

Grande Jantarada no Indigo
Claro que a experiência indiana não podia terminar sem ser de uma forma totalmente característica  mas já se fala nisso. À entrada do aeroporto, o táxi pára de forma a não vermos o caminho até ao edifício principal  o condutor pede-nos mais 50 Rps se quisermos que ele entre porque é preciso pagar parque. Por mim, saíamos ali, mas não fazíamos ideia de quão longe estávamos. Mais 50 a dividir também não é assim tanto. Entramos e é logo ali! Mas o caso não fica assim… não se vê ninguém a controlar entradas em qualquer parque. Apercebo-me que os taxistas não têm de pagar parque pois apenas estão de passagem. Quando pagamos, os taxistas voltam a pedir as 100 Rps do parque. O Mike explica que eu pago o parque. Há um certo atrapalhamento, assobiam a um tipo que nos aparece com umas senhas e nos dá 2 pelo valor total de 50 Rps. Os taxistas seguem um pouco cabisbaixos… Que discutam preços, que tentem sempre ganhar mais, eu compreendo. Que o façam de forma justa, que isto de dar tangas já chateia.

 

Entretanto, ainda no hotel, tínhamos encontrado um dos nossos condutores de moto-táxi, um dos que nos tinha abandonado muito chateado porque não tínhamos feito o negócio que ele queria e ainda por cima não lhe tínhamos pago um preço justo. Agora já queria que nós o contratássemos para nos levar ao aeroporto. Uma das coisas positivas: ninguém fica chateado muito tempo e tudo parece uma coisa do momento. Pelo caminho encontrámos uma procissão fúnebre: a cerca de 15 km do rio Ganges, alguns homens carregavam em ombros um parente falecido e entretanto já amortalhado. São só 15 km a andar até ao rio para depois procederem a uma cremação.

Grande Jantarada no Indigo
Se me lembro bem, este ritual inclui cantos. Antes assim, pois ainda vão penar muito até chegar ao Ganges.

 

No aeroporto, tudo se passa dentro da normalidade. Eu como a comida indiana de avião, algo que vim a descobrir como sendo a mais picante da Índia: uma infelicidade porque eu adoro picante e descobri que os restaurantes goeses de Lisboa são geralmente mais picantes que qualquer restaurante indiano na Índia. Aproveito o momento para recomendar o “Tentações de Goa” na Rua São Pedro Mártir, em Lisboa.

 

À chegada a Bombaim (Mumbai na denominação actual, mas Bombaim é tão mais sedutor), começam os contratempos. Isto deveria ser já um indicador do que estava para vir. Não há cacifos disponíveis no aeroporto o plano era deixar as malas no aeroporto e passear pela cidade sem preocupações. Depois dos atentados ao Hotel Taj Mahal Palace, a segurança apertou e deixou de haver cacifos no aeroporto. A solução passa por alugar duas carrinhas. A dividir por todos não fica muito mais caro e acaba por ser bastante mais prático. A viagem até ao Gateway of India é longa mas que diferença para toda a Índia que conhecemos. Bombaim tem todo o ar de uma cidade ocidental. Ruas alcatroadas, com aspecto limpo e organizadas. O caminho leva-nos mais de uma hora.

A Rute e a Sandra no Indigo
O Gateway fica mesmo ao lado do Taj Mahal Palace Hotel e é impressionante, muito mais do que davam a entender as imagens televisivas na altura dos atentados. Deambulamos pela zona, passamos pelo restaurante que tínhamos previamente marcado Indigo para confirmar dress code.

 

Subimos a avenida que sai do Tah Mahal Palace em direcção ao relógio torre Rajabai na universidade. Na mesma direcção fica a Victoria Station, mas o tempo começa a escassear e decidimos passar pela estação (classificada como património da Unesco) na ida para o Aeroporto. Voltamos para trás para ir jantar ao Indigo, um restaurante fino onde nós (meaning: mike) entramos de calções e cheios de poeira de varanasi colada ao corpo.

 

É dia dos namorados, o serviço é muito bom e tratam-nos de forma bastante cordial na verdade temos um aspecto um pouco pobre por comparação com todos os outros comensais. Quem come o quê, não sei, não escrevi no meu moleskine :P eu comi frango (outra vez!!!!!!) porque era o prato mais indiano que tinham: e mesmo assim conseguia ser fusion cuisine. Bebe-se bem, come-se melhor e novamente a conversa vai ter a temas interessantíssimos. Destaco 1: a funcionalidade e beleza dos bidés indianos! Meus amigos, o bidé indiano é mais conhecido por chuveirinho e é comum nos países muçulmanos e nórdicos.

Yummy!
Há lá melhor bidé!!!! (não podia deixar de mencionar as qualidades destes bidés neste relato tão pormenorizado)

 

Depois de tão belo repasto (aqui quem quiser escrever sobre momentos tão românticos está à vontade), dirigimo-nos para os nossos jipes privados com motorista. Estavam a bater uma bela sorna pelo que combinamos com eles que íamos beber uns copos e já voltávamos. Dirigimo-nos a um pub inglês conhecido por ser o mais antigo de Bombaim ainda em funcionamento (since 1874, confirma aí o nome e data mike). Estava a rebentar pelas costuras. Ainda decidimos ver o bar do outro lado da rua, referenciado pelo routard (o meu guia preferido, viva os guias routard), mas descobrimos que é um bar frequentado maioritariamente por muçulmanos. Estavam todos cheios de vontadinha de lá ir mas eu refreei os ânimos ao avisar alto e bom som: “meus amigos, ali não servem bebidas alcoólicas!”. Aí o pessoal dispersou e tivemos mesmo de voltar para os nossos jipes.

 

Chegados aos jipes combinamos com os motoristas que antes de irmos para o aeroporto queríamos passar pela Victoria Station (Victoria Terminus ou Chhatrapati Shivaji Terminus). Depois de alguma conversa, iniciamos viagem. Depois de voltas e mais voltas, começamos a desconfiar que os tipos não fazem a mínima de para onde queríamos ir.

O Souflé do Vilabril
Finalmente chegamos a uma estação de comboios que não interessava a ninguém. Fico fulo e quase dou um pêro no guia. (pronto, a parte de dar o pêro só me lembrei agora mas porra confirmámos 500 mil vezes que queríamos ir para a victoria station, em inglês e hindi. É assim tão estranho os turistas irem lá, não é algo que é logo óbvio? Aquilo é património da humanidade, classificado pela Unesco).

 

Bem, temos de voltar para o aeroporto. Pelo caminho, passamos a meia-noite e começo a ouvir no walkie talkie uma melodia conhecida… era o parabéns a você!!!! Muito giro, foram os parabéns mais originais que alguma vez me cantaram (ou seja: por um walkie talkie, amigos que estavam num jipe a cerca de 3 metros do meu, e pelos que se encontravam no mesmo jipe que eu, numa noite quente na índia! De certeza que não terei experiência idêntica nos próximos aniversários). Aí, esqueci todos os problemas com os motoristas, as estrelas pareciam alinhar-se e as vibrações cósmicas transmitiam felicidade ao grupo. Mal sabíamos o que nos esperava.

 

Começou logo com o pagamento dos jipes tínhamos usado horas a mais e gasolina a mais. As horas acordámos que pagávamos, a gasolina não porque os tipos deram voltas e voltas para nos levarem a um sítio que não era o que queríamos.

Hmmmmm!
No final, pagámos mais do que achávamos que devíamos (e incluímos gorja) mas menos do que eles nos pediam. É a gorja indiana em todo o seu esplendor, não podíamos abandonar a índia sem “sofrermos” mais uma tentativa de sacar mais algum ao turista que até aluga jipe…

 

Ao chegarmos à porta do edifício, começamos a entrar e pedem-nos para mostrar passaportes e bilhetes. Começo a vasculhar os meus papéis e nada, não há bilhete (a impressão do e-ticket). Lembro-me que quando tentei imprimir só apareciam caracteres estranhos como bolinhas pretas e quadrados vazios e que era essa a razão por que não tinha trazido o bilhete. Mas tinha todas as indicações do e-ticket, tinha-as copiado. Não servia. Não podia entrar. Eu bem tentei explicar que era um e-ticket, não tinha de ter papel nenhum e que facilmente se forjava um papel daqueles… mas o guarda não quis saber disso para nada e dizia-me que os meus amigos tinham, porque não tinha eu??? O guarda começava a exaltar-se e tinha uma metralhadora… achei por bem desistir. Então e agora? Ele responde: vá aos escritórios da companhia aérea e trate lá disso. Indicou-me um elevador num corredor qualquer por onde se podia entrar. O Miguel decidiu-me acompanhar, lá fomos os dois (obrigado Miguel!) enquanto o resto da trupe esperava no aeroporto e tentava perceber direcções para adiantar serviço.

 

Achámos rapidamente o elevador e fomos parar a um corredor longuíssimo.

The Taj Mahal Hotel
Portas e mais portas e não se via ninguém. Encontrámos uma espécie de guarda que nos indicou a 3ª porta à esquerda. Não havia nenhum escritório da companhia aérea na 3ª porta à esquerda. A cada pessoa que encontrávamos, inquiríamos sobre os escritórios da Sri Lankan Airlines e todos encolhiam os ombros. Finalmente, alguém nos acompanhou e fez-nos andar para trás e para a frente até que demos com um tipo sozinho num escritório. Expusemos o problema ao que ele respondeu: resolve-se num instante, isso acontece com frequência! Porra, se acontece com frequência, podiam ter um método mais expedito de resolver a situação do que pôr as pessoas a percorrer corredores vazios e sem indicação. Bem, o senhor lá nos imprimiu o bilhete e mandou-nos à nossa vida. Com isto devemos ter perdido 45 minutos, não sei bem. Mais uma vez, a vontade da Rute de chegar cedo ao aeroporto foi vantajosa (mas atenção Rute, relembro por exemplo o caso de Hué :P). Na fila para entrar novamente no edifício do aeroporto procuro o guarda que me impediu a entrada anteriormente. Estava mesmo com vontade de lhe ir esfregar o bilhete na cara mas mais valia não armar mais confusão além do que a outra fila parecia andar mais rápido.

 

Dentro do aeroporto passámos a tratar de formalidades. Check-in. E aqui acontece a surpresa. Para a Sri Lankan Airlines é preciso mostrar o cartão de crédito com que se comprou o e-ticket. Começo a tremer, não sei se trouxe esse cartão de crédito. Mas afinal safo-me: foi pago com o cartão do Mike e o Mike trouxe o dito… ufff… Só que. Só que nem todos tiveram a mesma sorte. O Miguel tinha comprado o bilhete usando o MBnet. E a nossa viagem ficou comprometida aqui, neste ponto. Não houve meio de demover os senhores da Sri Lankan Airlines, por questões de segurança o Miguel, a Carla e a Rosário não podiam embarcar. Enquanto pudemos, tentámos convencer as pessoas de que não éramos terroristas, afinal tínhamos andado na Índia durante 10 dias e não tínhamos feito explodir nada! Contudo, eles não tiveram pena de nós e 3 companheiros de viagem tinham mesmo de ficar para trás e resolver o assunto de outra maneira. Não havia mais voos da Sri Lankan Airlines nesse dia, só daí a 24 horas o que complicava a etapa cingalesa da viagem…

 

Às tantas, já não podíamos esperar mais: ou ficávamos todos na Índia ou separávamo-nos ali. Optámos pela 2ª via, um pouco constrangidos mas parecia realmente a melhor solução. As dificuldades técnicas de contactar os nossos guias cingaleses e tudo o mais fizeram-nos decidir dessa forma. A partir daí foi correria para apanhar o avião. As filas para os raios-x eram enormes, andava tudo devagar mas lá passámos. Ao chegar ao avião, antes do embarque, tínhamos de novo de mostrar as malas estas eram abertas e revistas. Hoje, quando penso em tudo o que sei, percebo melhor. A guerra estava realmente a desenrolar-se para o capítulo final e todo o cuidado era pouco. Nunca tinha visto o conflito no Sri Lanka como uma guerra sempre tinha pensado na existência dum grupo terrorista (os tigres tamil) que de vez em quando chateavam as pessoas. Obviamente, tudo é muito mais complexo do que estas palavras sugerem e este tema não vem para o caso aqui, nunca mais este relato acaba.

 

Entramos no avião e especulamos sobre o futuro da viagem. O que acontecerá ao trio que fica para trás? Para 6 do grupo, a aventura indiana acaba aqui. Para 3, ainda a procissão vai no adro… Confiram na próxima entrada do blog!


por Daniel Mota

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Foto de Grupo no Gateway of India
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The Taj Mahal Hotel de dia
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Rajabai Tower
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A Rute e a Sandra no Indigo
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O Souflé do Vilabril
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The Taj Mahal Hotel
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Mumbai
photo by: vvicy1